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2 ene 2026

Mestre Damasceno: a memória de um afromarajoara ganha registro audiovisual em Salvaterra


    O filme surge como um gesto de reconhecimento e salvaguarda da memória de um dos grandes guardiões da cultura marajoara


Registro Praia do Jubim, Salvaterra - Imagem: Kleyton Silva / Divulgação.
Registro Praia do Jubim, Salvaterra - Imagem: Kleyton Silva / Divulgação.

Por Estante Cultural — Belém(Pará),Amazônia.

02/01/2026 - 14h00


A trajetória, os saberes e a força cultural de Mestre Damasceno ganham forma e permanência no documentário “A Trajetória de um Afromarajoara”, que será apresentado neste sábado (03), em Salvaterra, no Marajó — território onde o mestre nasceu, construiu sua história e deixou marcas profundas na cultura popular paraense.


Dirigido por Guto Nunes, o filme surge como um gesto de reconhecimento e salvaguarda da memória de um dos grandes guardiões da cultura marajoara. Todas as informações que estruturam o documentário partem do olhar, da escuta e da vivência do diretor, que acompanhou de perto a caminhada de Damasceno e compreendeu, ainda em vida, a importância de registrar sua história.


Segundo Guto Nunes, Mestre Damasceno foi muito mais do que um personagem cultural: foi um agente ativo da tradição, um elo entre ancestralidade, território e identidade afro-amazônica. Sua atuação atravessou gerações, fortalecendo manifestações populares, saberes orais e práticas culturais que ajudam a compreender o Marajó para além dos estereótipos.


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O documentário reúne imagens, registros e depoimentos que ajudam a reconstruir essa trajetória, evidenciando o papel de Damasceno como referência cultural e símbolo de resistência. A narrativa não se limita à biografia individual, mas amplia o olhar para o contexto coletivo, destacando o Marajó como espaço de criação, memória e permanência cultural.


Para o diretor, lançar o filme em Salvaterra tem um significado especial. É no território do mestre que a obra encontra seu sentido mais profundo, devolvendo à comunidade uma história que sempre lhe pertenceu. “Falar de Damasceno é falar do Marajó, de sua ancestralidade e da força do seu povo”, aponta Guto.


“A Trajetória de um Afromarajoara” também se propõe a dialogar com o presente e o futuro, provocando reflexões sobre identidade, pertencimento e a necessidade de valorização dos mestres da cultura popular enquanto ainda estão entre nós — e, sobretudo, depois que suas vozes seguem ecoando pela memória coletiva.


Mais do que um registro audiovisual, o documentário se consolida como um ato de respeito, reconhecimento e continuidade. A história de Mestre Damasceno permanece viva, agora também preservada em imagem, palavra e território.



Imagem: Guto Nunes / Divulgação.
Imagem: Guto Nunes / Divulgação.

Mestre Damasceno

Homem preto, quilombola, mestre da tradição oral e guardião da cultura popular amazônica, Mestre Damasceno construiu uma trajetória marcada pelo pertencimento, pela resistência cultural e pela transmissão ancestral de saberes. Pescador, artesão, compositor e pai de nove filhos, nunca se afastou do Quilombo do Salvá, em Salvaterra (Marajó), território que moldou sua identidade e sua obra.


Como compositor autêntico da cultura popular, Damasceno levou para suas músicas, toadas e encenações os atravessamentos afro-indígenas de sua formação familiar. Suas composições narram histórias do território marajoara, conectando passado e presente, e estabelecendo pontes entre diferentes gerações de mestres da cultura popular.


Ao longo da vida, foi reconhecido por importantes instituições culturais. Recebeu dois reconhecimentos do Ministério da Cultura, foi reconhecido pelo Estado do Pará como mestre da cultura popular, teve suas obras declaradas patrimônio imaterial do Estado e foi reconhecido pela Fundação Cultural Palmares ainda em vida. Seu último grande reconhecimento nacional foi a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, honraria que ele carregava como representação coletiva do Quilombo do Salvá.


Mesmo vindo da tradição oral — historicamente excluída dos espaços formais de saber —, Mestre Damasceno rompeu barreiras ao se tornar um dos fundadores da Academia Marajoara de Letras, em Ponta de Pedras. Ali, foi legitimado como o “mestre da oralidade”, afirmando que o conhecimento não se limita ao papel escrito, mas também vive na memória, na música e na prática cotidiana.

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O filme e o tempo do mestre

O documentário que retrata sua trajetória foi lançado cerca de quatro meses após sua partida, mas estava totalmente finalizado ainda em vida. Damasceno acompanhou de perto as últimas etapas da edição, dirigindo cortes, sugerindo ajustes e escutando o filme completo, inclusive durante a internação hospitalar. Esse momento foi profundamente emocionante, sobretudo ao ouvir falas de sua mãe, registradas em imagens do primeiro documentário, lançado em 2012, e resgatadas para esta nova obra.


O lançamento foi adiado por complicações de saúde do mestre e por imprevistos envolvendo integrantes do grupo, até que o filme encontrou seu tempo possível: 3 de janeiro, como acreditam seus realizadores, no tempo que a vida — e Deus — permitiram.


Búfalo Segredo - Despedida

Formação ancestral e artesania

A formação cultural de Damasceno nasceu dentro da comunidade. Aprendeu o boi-bumbá com seu pai, Teodomiro Pereira dos Santos, grande tocador de boi da região. Cresceu trabalhando na roça, ouvindo os “pretos velhos” cantarem e transmitirem saberes por meio da oralidade. Foi nesse ambiente que passou a cantar, compor e integrar o carimbó.


Além da música, foi também mestre artesão. Trabalhou com a tala da jacitara, palmeira típica do Marajó, confeccionando paneiros, bois, búfalos, cavalos e diversos instrumentos e adereços das manifestações culturais. Esses saberes eram ensinados por meio da convivência, das músicas e das brincadeiras, mantendo viva a memória e a identidade marajoara.


Curiosidade, legado e perda imensurável

Para quem conviveu com ele, o principal legado de Mestre Damasceno é a curiosidade — sobretudo a curiosidade da criança em ouvir os mais velhos. Foi assim que aprendeu e foi assim que ensinou: transformando o aprendizado em experiência viva. Embora parte de seu conhecimento tenha sido registrada em fonogramas, gravações e documentários, a perda é imensurável. Muito do que ele sabia partiu com ele.


Arqueologia audiovisual

A construção do documentário pode ser compreendida como uma verdadeira arqueologia audiovisual. São mais de vinte anos de convivência e cerca de quinze anos de acervo em arquivos digitais. Além das entrevistas recentes, o processo exigiu um mergulho profundo em registros antigos para costurar memórias, falas e momentos que atravessam diferentes fases da vida do mestre. O filme nasce do diálogo entre o presente e um arquivo vivo.


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Lançar no território: gesto de salvaguarda

Lançar o documentário em Salvaterra não é apenas simbólico: é um gesto ético. Todas as produções realizadas ao lado de Damasceno sempre tiveram o compromisso de retornar à sociedade à qual pertencem. O trabalho se insere na salvaguarda da cultura imaterial — do carimbó, do boi-bumbá, do búfalo-boi — reafirmando que a cultura nasce nas comunidades e a elas deve sempre voltar.


Cultura como política

O novo documentário mantém a linha da resistência cultural. Afirma Damasceno como homem negro quilombola, cujos ensinamentos atravessam músicas, toadas e encenações. Mais do que registrar saberes, o filme revela os lugares de fala que ele conquistou — espaços historicamente negados aos mestres da tradição oral. Damasceno dizia que sua política era a cultura popular e que sua bandeira era a cultura popular. Ao acessar territórios de poder, ampliava sua voz para representar outros mestres, defendendo políticas públicas permanentes de Estado para garantir dignidade, saúde e bem-estar.


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Imagem: Guto Nunes / Divulgação.
Imagem: Guto Nunes / Divulgação.

Impacto esperado

A expectativa é que o documentário ajude o público a compreender o percurso de um ser afro-marajoara profundamente enraizado em seu território. Que inspire reflexão sobre os caminhos que Mestre Damasceno abriu e sobre como a cultura popular pode — e deve — acessar espaços antes considerados inalcançáveis.


Uma história que continua

A relação com Damasceno começou ainda na infância de seu principal colaborador, nas festas de junho, nos quintais de Salvaterra. Anos depois, o reencontro, o pedido de uma chance e a afirmação de que cultura popular é trabalho reacenderam a chama.  Damasceno acreditou. Voltou a fazer cultura. O que veio depois, a história já escreveu — e continua escrevendo.




Serviço: Mestre Damasceno: documentário “A Trajetória de um Afromarajoara”, será apresentado neste sábado (03), em Salvaterra, no Marajó - Pará.




#Documetário

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Franciorlis ViannZa - Escritor 

Paulo Ferreira - Escritor e Jornalista

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