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Educação, território e resistência: povos indígenas enfrentam desafios para preservar cultura e garantir direitos na Amazônia
Entre distâncias, políticas insuficientes e saberes ancestrais, comunidades indígenas reafirmam a educação como caminho de resistência, proteção ambiental e continuidade cultural no Brasil

Por Walace Ferreira — Belém(Pará),Amazônia.
24/04/2026 - 07h00
Na Amazônia brasileira, o acesso à educação indígena começa muito antes da sala de aula. Ele passa por rios, estradas precárias e longas distâncias que fazem parte da rotina de quem vive nos territórios.
Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o Brasil possui cerca de 178,3 mil escolas de educação básica, mas apenas 3.541 estão localizadas em terras indígenas, o que representa 1,9% do total.
Na prática, isso se traduz em desafios diários. De acordo com a assistente social indígena Rita Tembé, da Terra Indígena do Alto Rio Guamá (PA), o acesso às aldeias é uma das maiores dificuldades. “A maioria das comunidades fica em áreas de mata e próximas aos rios, e para chegar até a escola muitas vezes precisamos de transporte próprio ou da ajuda de outras pessoas”, relata.
Em períodos de chuva, a situação se agrava. “Os rios enchem, as estradas ficam esburacadas e escorregadias, e as escolas são distantes. Muitas vezes, o único meio de transporte são motos”, explica.
O cenário revela desigualdades estruturais que impactam diretamente a permanência escolar nas comunidades.
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Direitos garantidos, realidade em disputa
Apesar das garantias da Constituição de 1988, o acesso à educação indígena ainda enfrenta entraves que vão além da infraestrutura.
O Brasil abriga cerca de 1.694.836 indígenas, distribuídos em 391 etnias e falantes de 295 línguas, segundo o IBGE.
De acordo com o levantamento realizado pelo MapBiomas, as terras indígenas ocupam cerca de 13% do território brasileiro, contendo 112 milhões de hectares (ha), ou 19% de toda a vegetação nativa do país. Para entender a dimensão territorial, cada hectare equivale a um campo de futebol. Essas áreas estão entre as mais preservadas do país. Segundo o Instituto Socioambiental, funcionam como barreiras ao desmatamento, com níveis menores de degradação ambiental.
Mesmo com essa diversidade, a redução de falantes de línguas indígenas indica pressões culturais crescentes, associadas à ausência de políticas públicas efetivas.
Para o vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Alcebias Sapará, da etnia Sapará, do estado de Roraima, a demarcação de terras é o ponto crucial das demandas indígenas. “Hoje, a principal pauta dos povos indígenas é a demarcação dos territórios. É a partir dela que conseguimos avançar nas demais políticas públicas, como saúde e educação”, afirma.
Ele destaca que a diversidade dos povos indígenas exige abordagens específicas. “Estamos falando de aproximadamente 180 povos, com organizações sociais diferentes. Implementar um modelo de educação rígido dentro dessa diversidade é um grande desafio”.

Ao abordar sobre o território e os entraves sociais que enfrentam, a pressão agrava o cenário. “Nossa cultura vem sendo impactada pelo avanço das invasões, como garimpo e grilagem”, afirma o vice-coordenador da COIAB.
Nesse contexto, para Rita Tembé, uma contradição se evidencia nas comunidades. “Se o invasor consegue chegar até nós para causar danos, por que o Estado não consegue chegar para garantir uma educação de qualidade?”, questiona.
Para a COIAB, a baixa participação nas decisões também limita avanços.
“Muitas vezes, quem decide não conhece a nossa realidade”, aponta Sapará.
Educação como resistência e futuro
A educação indígena vai além do acesso à escola e está diretamente ligada à preservação cultural e territorial.
Para a especialista em história e cultura afro-brasileira e indígena Roberta Cabá, da etnia Munduruku, existem dois tipos de educação: a educação formal e a baseada nos costumes e tradições, que é a escolar indígena. “A educação escolar indígena tem um papel importante de resistência, porque respeita as culturas, as línguas e os modos próprios de aprender”, explica.
A relação dos povos originários vai muito além da defesa por uma educação que valorize os saberes tradicionais, mas se estende ao meio ambiente. “A educação indígena se conecta com a proteção do território por meio dos saberes ancestrais, que ensinam como manejar a natureza e respeitar os espaços sagrados”, afirma Cabá.
Ainda assim, os desafios persistem.
“A permanência depende da oferta nas aldeias, que enfrentam dificuldades logísticas e estruturais”, afirma.
Rita Tembé explica que mesmo diante das dificuldades, há sinais de transformação. “A educação hoje tem fortalecido nossa identidade. Sabemos que fomos proibidos de viver nossa cultura, mas agora estamos retomando isso.”
Entre os jovens, o movimento cresce.
“Muitos assumem seus nomes indígenas e protagonizam suas tradições.”
Para Roberta Cabá, o acesso aos direitos já garantidos e a ação fazem toda a diferença. “O essencial é o respeito e o cumprimento dos direitos já garantidos. As leis existem, mas precisam ser efetivamente aplicadas”, explica.

Educar para permanecer
A educação indígena se consolida como ferramenta de continuidade e resistência. Mais do que acesso ao ensino, representa a defesa do território, da cultura e do equilíbrio ambiental na Amazônia.
Neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, a reflexão sobre educação, território e cultura ganha ainda mais relevância. Mais do que simbólica, a data reforça a necessidade de garantir direitos e reconhecer os saberes indígenas como fundamentais para a preservação ambiental e a diversidade cultural do país.
Diante desse cenário, especialistas e lideranças indígenas apontam que a transformação passa, pelo reconhecimento efetivo dos territórios como espaços de educação e produção de conhecimento. Isso implica não apenas garantir acesso às escolas com educação inclusiva, mas estruturar políticas públicas que considerem a realidade logística, cultural e ambiental das comunidades, respeitando seus modos próprios de ensinar e aprender.
Outro ponto fundamental é a ampliação da participação indígena na formulação e execução das políticas públicas educacionais. Mais do que beneficiários, os povos originários precisam ser protagonistas na construção dessas soluções, contribuindo com seus saberes para modelos de ensino que dialoguem com a preservação ambiental e com a diversidade cultural do país.
A educação dos povos originários, nesse contexto, se consolida como base para transformações mais amplas. Ao fortalecer identidades, proteger territórios e integrar conhecimento tradicional e formal, ela não apenas garante direitos, mas também aponta caminhos para um modelo de desenvolvimento mais equilibrado. Pensar na permanência dos indígenas em seus territórios se torna elemento central para a sustentabilidade da Amazônia e do Brasil.
“O que mais me alegra é ver os jovens ocupando espaços e fortalecendo nossas lutas”, conclui Rita Tembé.
#PovosOriginarios
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