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Crônicas: Avião sem banco, cinto e porta

28 de mar. de 2020
3 min de leitura

Com Paulo Roberto Ferreira


Avião de carga para o garimpo - Imagem: internet/ fonte: http://blogs.opovo.com.br/asaseflaps/2012/01/09/aviacao-de-garimpo-os-kamikases-da-amazonia/

Viajar na Amazônia exige uma boa dose de espírito de aventura. Em 1984 eu estava em Xinguara, onde fora acompanhar uma discussão sobre os 20 anos do Estatuto da Terra e os conflitos fundiários no sul do Pará. Quando liguei para o Anselmo Gama, chefe de reportagem do jornal O Liberal, a fim de comunicar que minha jornada estava encerrada, recebi outra missão: tomar o rumo de Tucumã, de ônibus, ao longo da rodovia PA-279. Garimpeiros tinham invadido uma reserva indígena da etnia kayapó, em São Félix do Xingu.




A estrada não era asfaltada. E, como estávamos no período de chuva, em pouco tempo tivemos que abandonar o veículo. Uma cratera cortou o nosso caminho. Tivemos que atravessar uma ponte improvisada e passar para uma Kombi, que iria somente até Guaritaí, lugar que eu nunca havia ouvido falar. Encarei. Quando cheguei no destino fui informado pelo dono do pequeno restaurante que o lugar tinha trocado de nome: agora chamava-se Ourilândia.




Enquanto aguardava a picape que fazia linha para Tucumã, tomei conhecimento que a construtora Andrade Gutierrez ganhara, nos anos 1970, do então presidente da República, Ernesto Geisel, uma área de mais de 3 mil hectares, sem passar pela aprovação do Senado Federal, para implantar o Projeto Tucumã, que acabou se transformando num distrito de São Félix do Xingu e depois passou a condição de município.




A empreiteira de obras, que nunca tinha administrado um projeto de assentamento rural, estabeleceu que só venderia os lotes de terra a colonos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Instalou uma milícia para controlar o acesso de pessoas (maranhenses e goianos) que se deslocavam de Xinguara para São Felix. E montou guaritas ao longo da rodovia, com numeração em algarismo romano. Assim a primeira, onde as pessoas eram obrigadas a descer do transporte e passar por rigorosa revista, passou a ser chamada de Guaritaí (de Guarita I).



Quem levava picareta, pá, enxada e bateia, não podia prosseguir viagem. Os garimpeiros sentiam ódio dos guardas da empresa. E alguns foram ficando por ali mesmo, enquanto aguardavam condução para retornar. Outros começaram a improvisar vendas de comida. Porém, os mais ousados entravam pela floresta e rumavam em direção a São Félix. No meio do caminho, nas margens dos afluentes do rio Fresco, começaram a garimpar. E foram surgindo pequenos veios de ouro. O ponto de referência passou a ser a Guarita I, que atraiu prostitutas, vendedores de remédio, comércio de secos e molhados e igrejas, ali na porteira de Tucumã.




O amontoado de gente se transformou em povoado e, em pouco tempo, os brios dos moradores do lugar, falou mais forte: decidiram, até como vingança ao chefe da segurança da Andrade Gutierrez, que Guaritaí deveria ganhar outro nome: Ourilândia do Norte. Na planejada vila de Tucumã, ficavam o campo de aviação, o posto da Funai e a unidade da Polícia Militar, instalados em ruas bem traçadas. Mas era na desordenada Ourilândia que os homens buscavam bebida, sexo e todo tipo de negócio que não se praticava dentro do Projeto.

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Quando recebi autorização da Funai para entrar na Aldeia Krokaimoro, onde os índios amarraram um grupo de garimpeiros, eu só tinha uma opção de transporte: via aérea. Mas os fretes eram caros e a ordem de pagamento que o jornal me enviara não dava para bancar os custos. Fui aconselhado a procurar um piloto que fazia transporte de carga aos garimpos. Acertei com um veterano profissional, que me aconselhou a comprar repelente porque na aldeia tinha muito pium, um tipo de mosquito que provoca estragos na pele e até febre. E na hora combinada, entrei no monomotor . Só tinha a cadeira do piloto. Todo resto era saco de feijão, arroz, farinha, açúcar, charque e outras mercadorias. Fui sentado em cima da carga, sem cinto de segurança. E porta? Também só existia a porta do piloto. O outro lado era todo aberto para poder despejar os produtos na direção da clareira, devidamente forrada com folhas.




O piloto me deixou e seguiu viagem. Quando retornou, o avião estava vazio. Voltei para Tucumã sentado numa lata de querosene, arranjada por um funcionário da Funai, cheio de notícias quentes e exclusivas. Coisa de repórter que enfrenta qualquer obstáculo para obter informação de interesse público. Eram tempos difíceis, mas os jornais ainda investiam em reportagem.


Publicada no portal www.oestadonet.com.br em 06/03/2016.




 
 
 

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