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Uma Academia de Letras para os Marajós:
o maior arquipélago flúviomarinho do mundo Copiar

Franciorlis ViannZa

19 de fev. de 2024

O arquipélago do Marajó é um dos muitos rincões paraenses que sofre com a invisibilidade e exclusão.

#OuZeSaber!


Até meados de 2022, conhecia o Marajó como a maioria das pessoas do Pará e de fora: por intermédio de relatos de viajantes, de imagens da internet e dos romances de Dalcídio Jurandir.


Como toda visão teórica, minha leitura compreendia uma pequena parte; a outra (os 99% do iceberg), necessitava tocar, sentir, aspirar, enxergar as cores, provar os sabores do Marajó, prosear com seus habitantes, aprender o linguajar local, navegar seus rios, transpor as notícias enviesadas que recebemos, aportar em um Marajó para além dos estereótipos, das publicações em jornais e do fetichismo por uma mitopoética que acolhe o grafismo, as riquezas naturais, os búfalos e a cultura artística, mas ignora os dilemas do cotidiano ribeirinho.


O arquipélago do Marajó é um dos muitos rincões paraenses que sofre com a invisibilidade e exclusão.


Em contraste com a riqueza natural e humana, o Marajó frequenta fins de listas indesejadas de índices de desenvolvimento, saúde, saneamento e qualidade de vida. Um quadro que decorre da ausência ou incipiência de políticas públicas ao longo da história – quando a Máquina pública resolve dar as caras, costuma implementar projetos e ações sem escutar os maiores interessados: as comunidades que serão afetadas.




Acreditar que sabe o que é o melhor para um território foi o grande erro do Sul e Sudeste com os programas para ocupação da Amazônia. Autoridades paroaras cometem sucessivamente o mesmo equívoco com o Marajó.


O Marajó tem vozes que falam por si, sem a necessidade de intérpretes oriundos de cátedras, metrópoles ou impérios de comunicação.


Descobri in loco que não existe um só Marajó, mas vários. Em termos de distribuição municipal, 17 cidades compõem o arquipélago (Limoeiro do Ajuru vem por aí...). Em termos de interregionalidade, conforme estudos de Agenor Sarraf, há o Marajó Oriental (Marajó dos Campos) e o Marajó Ocidental (Marajó das Florestas).


Atrevidamente, incluo também um mapeamento mitopoético, dotado de geografia imensurável: o Marajó do Fausto; neste caso, existe um Marajó para cada encantado que por ali habita, assombra, assovia e se mete em mundiações para proteger a fauna, a flora e os moradores.


Estive em dois municípios marajoaras: Breves e Ponta de Pedras. Na Praça do Operário, comunguei de momento ímpar com os amigos Vanderlei de Castro, Robert Lisboa, Ubiraci Conceição e Jolenas Nascimento, na companhia de um bom violão e cordéis que versavam sobre a história de Breves.





Na Vila de Mangabeira, permiti que toda a transitividade do rio-mar me inundasse. Esses dois Marajós serviram como vislumbres de uma terra plural, intercultural e batalhadora. Um Pará que resiste bravamente contra o metropolitismo institucional, contra o preconceito e as distâncias endógenas e exógenas.


Em sua luta contra a invisibilidade cultural, os escritores e escritoras marajoaras decidiram fundar uma Academia de Letras com abrangência regional, constituída por representantes de cada um dos 17 municípios. Dessa união de esforços e sonhos, surgiu a Academia Marajoara de Letras (AML), com existência de fato desde 2023. A partir dessa iniciativa, ocorreu um importante processo de aproximação entre os próprios marajoaras. Sim, outra quebra de paradigma acerca do Marajó: ir de um ponto ao outro do arquipélago nem sempre é tarefa fácil, por causa dos rios, das dimensões territoriais e dos custos para deslocamento.


Durante o processo de solidificação da arcádia dos Marajós, os futuros imortais passaram a conviver mais (ainda que virtualmente), a compartilhar lutas, obras e projetos, e formaram uma irmandade, uma aristocracia dos pés no rio. Um ponto alto da última Feira Pan-Amazônica do Livro foi a participação de autores e autoras pertencentes ao silogeu.




Recebi a notícia de que em 24 de fevereiro, deste ano, os marajoaras da arte e cultura se reunirão em Ponta de Pedras para fundar legalmente a Academia, com solenidade de posse dos imortais e muita cantoria por parte de um dos membros: Mestre Damasceno, salvaterrense, que também será empossado como membro da AML.


Ponta de Pedras, onde nasceu Dalcídio, será palco de um momento histórico para os Marajós.


Já estou de malas e cuias prontas. Pedi para a artesã Jaci Garcia uma roupa com a cor e cara local. 24 de fevereiro, os Parás se encontram nos Marajós para construção de uma ponte cultural entre os 17 municípios, com extensão para os outros 127 de cá, deste lado dos rios.


Os Marajós têm vozes, e uma porção delas falará por intermédio da Academia Marajoara de Letras.


Os demais Parás que escutem!




 


Franciorlis ViannZa, periodicamente, vai abordar temas pertinentes do cenário literário e cultural de nossa região.

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